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EXPERIÊNCIA VIVA - CRIME NA CIDADE
Por Humberto Ferreira (CAPÍTULO para PAPALÉGUAS)
O verão de 2008 fica marcado pelo aumento da criminalidade violenta em Portugal. Passamos dos actos criminais amadores - roubos por esticão na rua, nos transportes e nas lojas, carteiristas, carros roubados de noite, assaltos a casas na ausência dos locatários, conto do vigário, etc. - para a fase da violência, em que se mata por matar, sem remorsos para subir na hierarquia do crescente número de gangues organizados ... à portuguesa.
Há muitas causas mas a principal é, sem dúvida, a falta de respeito à autoridade. Polícias e guardas são, aliás, as principais vítimas desta nova vaga. Atropelam-se propositadamente agentes da autoridade, atira-se a matar contra os perseguidores policiais, provocam-se as patrulhas, mostra-se aos cidadãos que os gangues não temem a lei nem a ordem. Nem a morte do assaltante do BES em Campo de Ourique dissuadiu outros assaltantes.
Outra causa incontroversa é o facto do surto de terrorismo no 11 de Setembro nos EUA mais os atentados posteriores em Londres, Madrid e um pouco por todo o lado, desde Bali à Rússia, ter vindo provar aos criminosos que, se associados em ganques, não há polícias nem exércitos que os consigam vencer!
A considerar, ainda, que os próprios terroristas (da ETA e outros) precisam de roubar carros, telemóveis, explosivos e outro material e equipamento para perpetrar as suas acções ilegais. Ou fazem eles este trabalho acessório, ou encomendam-no!
E o que fizeram os doutos especialistas lusos? NADA. Deixaram crescer o medo!
Qual reforçar as patrulhas policiais nos pontos nevrálgicos? Para quê? É melhor aguçar a capacidade de dedução à posteriori dos nossos "sherlocks", que nem recebem horas extras! À moda antiga, quando os patrões exploravam o pessoal!
Ora nem é preciso ser criminologista nem autor de livros de grande tiragem, para se distinguir os mentirosos, distraídos, preguiçosos, teimosos, inexperientes e incompetentes que temos visto passar pela cadeiras da segurança interna.
RECEIO INSTALADO
Este verão não foram os incêndios mas sim o receio dos assaltos e tiros soltos que se apoderou das pessoas mais fragilizadas: famílias com filhos - crianças e jovens -, idosos, mulheres e residentes em zonas periféricas ou isoladas. Temos receio de ir ao banco, ao supermercado, levantar dinheiro de uma ATM, meter gasolina, frequentar cervejarias ou esplanadas desconhecidas, passear nas ruas e nos espaços mais movimentados. Até a casa do PGR foi assaltada numa aldeia da Beira!
Eu próprio deixei de sair à noite. Uma situação de carjacking não me agrada. Mas também posso sofrer "homejacking"! Já não há é Madonnas nem Liedsons que me convençam a trocar a TV por espectáculos nocturnos ao vivo!
Mas tudo o que governantes, políticos, magistrados, polícias, advogados, comentadores, ou os chamados criminologistas nos dizem na televisão e nos jornais, não nos consegue sossegar!
Depois, cada um puxa a brasa à sua sardinha. Magistrados e polícias contra advogados.
Governantes contra a oposição e, em certos casos, até têm razão pois a oposição quando esteve no poder também não fez o que deveria ter feito: preparar o País para este tipo de crime. Polícias falam menos, mas creio que os planos de segurança interna vigentes, assim como os antecedentes, saíram mais da cabeça dos seus chefes do que dos legisladores de "política geral".
A vigilância virtual (vulgo: vídeo-vigilância) substituiu mal as patrulhas permanentes nas ruas e locais de intenso movimento. Foi criada mais burocracia para transformar os polícias em amanuenses. E, como sempre, em Portugal, só tem valor quem apresenta, aos sucessivos governos planos para poupar encargos no Orçamento de Estado. O nosso país nasceu para poupar eternamente. Se fossemos dar ouvidos aos ministros, seja de que partido for, nem subia o consumismo!
Desde que me entendo o discurso é sempre o mesmo: governar com rigor e pedir mais sacrifícios aos trabalhadores, contribuintes e reformados!
Ora um governo deve ter três ordens de prioridades. 1º. Governar para satisfazer as necessidades e aspirações dos empresários e profissionais activos. De todas as categorias e ramos. 2º. Governar para satisfazer um padrão de vida e de acesso a bens complementares e aos serviços públicos que competem ao Estado (Saúde, Justiça, Segurança e Protecção Civil, Ordenamento Territorial, Equipamentos Públicos, Cobrança de Impostos, Igualdade de acesso e formação, etc. Tudo que seja compatível com os rendimentos justos de cada agregado familiar. E compete a estes poder pressionar o governo para lhes satisfazer as necessidades básicas e complementares justas mais a segurança das crianças, doentes, dependentes idosos, estudantes, reformados e desempregados inadaptados. 3º. Por último, deverá atender aos desejos de melhoria de remunerações e condições de trabalho dos políticos, dentro dos condicionalismos existentes mas nunca como privilégio especial, como tem sido feito. Quem parte e reparte e não escolhe a melhor parte ... já passou à história e pode ser entendida como gerir fundos públicos em benefício próprio. O serviço político é um serviço público voluntário. Não uma fonte para enriquecer acima da média dos restantes cidadãos!
ESTATÍSTICAS A GOSTO
As estatísticas são grosseiramente manipuladas. Por exemplo, dizem que há hoje menos homicídios que há cinco anos. Pode ser que num ano ou noutro isso se tenha verificado. Mas o que interessa é fazer estatísticas por décadas e analisá-las. Quais os factores 11 de Setembro que permanecem sete anos depois? Dizem que deixou de haver crimes passionais. Talvez tenham descido (o caso do serial killer de Cerragal do Sal, reformado da GNR, não foi ficção, pois não?), mas continuam a haver alguns, enquanto outros podem levar classificação diferente segundo o critério do agente ou guarda de serviço!
E também passou a haver muitos mais casos de pedofilia. Mas, quanto a mim, ainda pouco penalizados pela lei lusa. Que quando é aprovada não beneficia todos da mesma forma.
Dizem que há menos crimes por questões de partilhas e definição de propriedades. A maior parte dos terrenos está abandonada, as casas em ruínas, perderam valor, os proprietários já morreram, e os herdeiros nem querem pagar a décima (agora imposto autárquico, quantos nomes já fui obrigado a chamar-lhe). Diz-se muita coisa sem se pensar no que se diz!
Uma coisa é certa: outros países europeus têm vindo a reforçar as penas contra a segurança, após o 11 de Setembro, enquanto os nossos brandos costumes levaram os penalistas portugueses a propor o contrário a Sócrates. Quanto mais leves forem as penas, menos o Governo gasta nas prisões. O resto não interessa. A segurança das aldeias, vilas, cidades, pessoas, empresas e bens que se dane! VIVA O 25 DE ABRIL acima de tudo!
AOS TIROS NOS ESTADOS UNIDOS
A primeira vez que fui aos Estados Unidos foi a Nova Iorque em 1967. No segundo dia, estava num autocarro na 5ª avenida, em excursão, e comecei a ouvir tiros no passeio onde vi um tipo a fugir e dois polícias aos tiros atrás dele. Ninguém ficou ferido. Os "cops", na sequência dos "cowboys" e "sheriffs", treinam bem o tiro. Mas não gostei. Ofereceram-me vários empregos lá. Nunca aceitei.
Também tive a felicidade de calcorrear ileso e sem problemas, a pé os espaços da noite em Manhattan, San Francisco, Chicago, Detroit, Filadélfia, New Orleans, Saint Louis, Seattle, Orlando, etc. Incluindo as China Towns.
Uma vez, em NYC decidi ir à noite para Greenwich Village, bairro boémio dos artistas. Meti-me no Metro à porta do hotel e saí, onde, pelos meus cálculos, pensei que fosse Greenwich Village. Ao cimo da escada do Metro encontro um polícia enorme (de patrulha) e perguntei-lhe para que lado devia ir? Olhou-me do alto da sua estatura e disse-me numa acção pedagógica (não sei se própria se institucional): O quê! Queres ir sozinho para Greenwich Village? Nem penses! De onde vens? Lá lhe disse o Hotel. Então volta para trás, apanha o Metro e vai beber um copo no bar do hotel. Claro que não fui. Voltei, subi por outra escada e passei um agradável serão. Havia uma passagem de moda nas ruas (era Junho), muita gente, muito convívio saudável, jantei num restaurante grego. Uma bela recordação. Tive sorte!
A cidade onde tive mais receio foi Washington. Tinha lá dois amigos na Voz da América. Fui jantar a casa deles. Foi um caso sério. Identificação do táxi, minha, itinerário assinalado ao Police Department, horário. Uma cidade policial. Entende-se! Mas não se grama! Conheço cidades onde nem se pode andar a pé: Los Angeles, Houston, Phoenix, Dallas, Denver, etc. Hoje, viver nos EUA deve ser uma lotaria. Uma família tem os filhos na escola ou na faculdade e aparece um doido que começa a disparar e matar todos sem se saber a razão! Ora na Europa e em Portugal vamos também ter que controlar mais as armas e os atiradores se não quisermos isto!
ASSALTO AO SUPERMERCADO
Curiosamente, a primeira vez que fui ao Brasil, também fui recebido com tiros. Num assalto ao supermercado próximo do hotel em Copacabana. Todos encostados à parede com as mãos no ar. No hotel tinham-me dito, quando saíres leva sempre já não me lembro quantos cruzeiros (a taxa mínima a entregar aos assaltantes na praia, nas lojas, na rua), por isso o estrago não foi grande! Aluguei um carro da Avis e a funcionária perguntou-me: Já conduziu no Brasil? Não! Então, para si, não há sinal vermelho. Não pare, avance sempre, com cuidado. E nunca pare para ver um acidente... Fiquei grato pelo recado e cheguei a conduzir no Rio como se estivesse em Lisboa. A prática é a melhor professora. E nunca tive o mínimo percalço, nem a pé nem de carro. No Rio, em São Paulo, Salvador, Recife, Natal, ou Fortaleza. Porém, nunca me armei em turista! Em Roma faz como os romanos.
A LIÇÃO DO REINO UNIDO
Estudei quatro anos no Reino Unido: Inglaterra e Escócia. Newcastle-upon-Tyne e Glasgow. Uma cidade media e outra gigantesca, com três milhões de habitantes na época. Ambas cidades são portuárias, abertas a muitas nacionalidades. Mas constatei que os ingleses gostavam era de andar à pancada, talvez resultante dos filmes de cowboys da época. Eles provocavam e incomodavam. Eram mal criados, invejosos e maus. Professores e colegas. Eu e os meus colegas lusos era raro o dia que não tinhamos que andar à pancada.
Era uma época socialmente difícil, depois da segunda guerra mundial. Famílias destruídas, jovens sem objectivos de vida (muitos emigraram para os EUA, Canadá, Austrália, etc.), bastante desemprego por um lado e ostentação por outro. Um grande leque de categorias sociais em confronto. Os operários usavam boné e os chefes chapéu. Mas já as mulheres a dias também usavam chapéu, como as senhoras para quem iam trabalhar e que lhe davam os chapéus fora de moda. Mas havia muita gente rica a viver acima da média europeia. Da comparação com o nível da vida portuguesa ... então nem se fala! Hoje como há 55 anos.
ASSALTOS PROFISSIONAIS
Comecei então a notar, nos jornais, que os maiores assaltos e roubos do mundo eram praticados por criminosos profissionais de nacionalidade britânica, quase sempre à ponta de pistolas e espingardas (metralhadoras ainda eram um luxo). Assaltos a bancos, ao combóio Glasgow-Londres (até à pouco tempo o maior roubo da história), às estações de correios, às empresas (no dia dos pagamentos semanais à sexta-feira), etc.
Hoje, as cidades britânicas ainda não são seguras. Mas vê-se, de dia e à noite, patrulhas policiais (desarmadas) nos bairros e locais mais movimentados, a impor respeito. A noite em Inglaterra é lume! A crise em Inglaterra, como na Europa, também é endémica. No meu tempo não havia praticamente nem emigrantes dos antigos protectorados britânicos nem europeus - cuja integração constitui, agora, o maior problema social. Mas o país sempre teve um padrão de vida muito superior ao luso. Por isso, vivem lá algumas dezenas de milhares de emigrantes portugueses.
Mas o crime violento é uma constante na sociedade britânica. E a polícia, por exemplo, no caso dos atentados terroristas conseguiu, rapidamente, detectar os autores. Também há lá mais pedofilia, pois a actuação policial e da justiça parece ser mais leniente.
Aliás, aguardemos pelo resultado do processo da Casa Pia? Que já leva quatro anos ... para ver quem é, afinal, o país europeu mais liberal face à pedofilia?
Ora face a estas três experiências pessoais, não me venham os comentadores de serviço dizer que Portugal continua a ser um país altamente seguro. E os responsáveis do Turismo nem devem tocar neste ponto. Pode tornar-se perigoso. Para mim Portugal é tão inseguro como os outros países. Pior! Se não melhorarem rapidamente a lei penal e articularem as forças policiais, mais a vigilância policial de proximidade, está a aproximar-se do Brasil, EUA e Reino Unido! Onde, mesmo assim, não deixo de ir, sempre que posso!
Labels: Segurança Pública
posted by humberto salvador ferreira #
11:29 AM 